quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Johannes Steinhoff - a história completa.

"Ame seu País. Lute por seu País. Acredite na verdade e isto é suficiente."

Johannes Steinhoff

Johannes "Macky" Steinhoff é considerado por muitos de seus companheiros de batalha e pelos estudio-sos da aviação como um dos mais efetivos líderes da Luftwaffe durante a guerra, sendo um dos raros ases a-lemães que combateu durante toda a guerra e que sobreviveu a ela para, nos anos 50, retomar sua carreira na nova Bundesluftwaffe. Ele arriscou sua vida dia após dia para defender seu país e enfrentou não apenas os ini-migos mas o Alto Comando da Luftwaffe e suas ordens suicidas, colocando em jogo sua carreira.




Steinhoff nasceu em 15 de agosto de 1913 em Bottendorf (Turíngia), filho de um empregado de moinho e de uma tradicional dona-de-casa, convivendo com outros dois irmãos e duas irmãs em uma região rural. A despeito de sua origem humilde, ele freqüentaria o Gymnasium onde estudou literatura clássica e várias línguas como o latim, grego, fran-cês e o inglês - formação esta que se mostraria extremamente útil nos anos seguintes.

A princípio o jovem Steinhoff pretendia tornar-se professor, mas a pre-cária situação econômica da Alemanha (em razão da crise mundial o-casionada pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929) o impediu de exercer o magistério. Sem desejar ficar desempregado, Steinhoff alis-tou-se na Marinha (Reichsmarine) em 1934, onde ele permaneceria por um ano e se tornaria amigo de outro futuro ás, Dietrich Hrabak. Devido ao interesse de ambos por aviões, tornaram-se cadetes da aviação na-val. Contudo, ainda devido às imposições do Tratado de Versailles, a Alemanha estava proibida de possuir uma aviação militar.


Mas, a essa altura, Hitler já havia assumido o poder e determinou que Göring (ajudado por Erhardt Milch eErnst Udet) começasse a reconstruir a Força Aérea - agora como uma Arma totalmente independente - que se ria chamada de Luftwaffe. Logo no início desta mobilização (que seguiu discreta até por volta de 1937), Macky foi transferido para a Luftwaffe, sendo aceito e incorporado ao treinamento de pilotos de caça, onde estudaria ao lado de outros grandes nomes da aviação militar germânica como Hannes Trautloft, Adolf Galland e Gün-ther Lützow.


Embora não tenha participado da Legião Condor, o que o impediu de combater na Guerra Civil Espanhola, Steinhoff tornou-se um dos primeiros pilotos alemães a alcançar u-ma vitória confirmada no conflito, logo no início da Guer-ra, em setembro de 1939. Nessa ocasião, o jovem Ober-leutnant estava lutando junto a JG 26 (Jagdgeschwader26), atuando como Staffelkapitän do 10/JG26, unidade de signada para proteger o espaço aéreo do litoral alemão de prováveis investidas britânicas. Em 18 de dezembro de 1939, a Royal Air Force (RAF) planejou um ataque à base naval germânica situada em Wilhelmshaven. Stein-hoff decolou com seu Staffel para interceptá-los e termi-nou por abater dois dos bombardeiros britânicos, sendo condecorado com a Cruz de Ferro de 2ª Classe.






No entanto, "Macky" - como era chamado pelos amigos - permaneceria pouco tempo nesta unidade, sendo transferido em fevereiro de 1940 para o 4./JG52 (4º Staffel da Jagdgeschwader 52), onde ele permaneceria du-rante a Blitzkrieg que varreu os Países Baixos, Bélgica e França na primeira metade de 1940, bem como du-rante a Batalha da Inglaterra. No entanto, Steinhoff teve uma participação discreta nestes teatros de guerra, a despeito de suas qualidades de líder já se mostrassem evidentes. Mas, como tantos outros de seus colegas Steinhoff atingiria seu ápice como piloto de caça durante a Campanha na Rússia.



Inicialmente, designado como Staffelkapitän do 4./JG 52, enfrentando um inimigo mal preparado, seu número de abates cresceu rapidamente e, em 30 de agosto de 1941, Steinhoff foi agraciado com a Cruz de Ca-valeiro da Cruz de Ferro após abater seu 35º avião inimigo. Anos mais tarde, ele relembraria os combates contra os soviéticos e a dura luta na frente oriental:

"Os soviéticos eram disciplinados, motivados e razoavelmente inteligen tes, mas eram bem treinados em táticas. Eles eram bravos em grande parte mas, ao contrário dos britânicos e americanos, eles desistiam do combate após apenas alguns minutos e um par de voltas. O piloto sovi ético não era um lutador nato no ar.

(...),
Bem, depois, os soviéticos melhoraram. Na verdade haviam alguns de seus melhores pilotos formaram as famosas unidades da Bandeira Ver melha, que tinham alguns dos grandes pilotos do mundo. Eu lutei con-tra eles na Criméia e nos Cáucasos, mais tarde.


(...),
Provavelmente, o mais importante era saber que se você fosse abatido ou ferido e se tornasse um prisioneiro de guerra - isto é, se eles não o matassem primeiro - você seria muito maltratado. Não havia respeito mútuo. Você somente estava à salvo em suas próprias linhas. Os soviéticos não tratavam os nossos homens bem depois de capturá-los."

Em fevereiro de 1942, Steinhoff foi nomeado Gruppenkommandeur do II/JG52 (Gruppe II da JG 52) e promovido a Hauptmann. Seis meses depois, em 31 de agosto de 1942 ele alcançaria a marca "mágica" das 100 vitórias aéreas, razão pela qual ele se tornou o 115º soldado da Wehrmacht a ser condecorado por Hitler com as Fo-lhas de Carvalho de sua Cruz de Cavaleiro. Foi assim que ele teria seu primeiro encontro com o Führer, ao re-ceber sua condecoração de suas mãos, em 02 de setembro de 1942. Os combates prosseguiriam e, em 02 de fevereiro de 1943, Steinhoff derrubou seu 150º avião adversário.


Em março de 1943, Johannes Steinhoff foi transferido para o teatro de operações do Mediterrâneo a fim de assumir o posto de Geschwader-kommodore da JG 77, após a morte de seu antigo líder, Joachim Mün-cheberg, que caiu durante um combate contra os americanos. Ele lide raria esta unidade por mais de um ano, primeiro na retirada pela Sicília e Itália e, finalmente, na Defesa do Reich. De novo, Steinhoff nos con-ta como foi combater, novamente, na frente ocidental:

"Assim que eu assumi o comando da JG 77 eu fui derrubado em mi-nha primeira missão, enquanto atacava uma formação de B-24 Libera-tors, e então soube imediatamente que aquela era uma guerra total-mente diferente daquela de 1940. Eu compreendi, enquanto meu avião perdia o controle e eu saltava com o pára-quedas (pela primeira e últi-ma vez) o quanto eu tinha esquecido. Eram coisas diferentes lutar con tra os soviéticos e contra uma força combinada anglo-americana, mes mo com os russos nos superando numericamente. Os aliados ociden- tais tinham aperfeiçoado seus equipamentos, que já eram de primeira linha. Eu tinha também esquecido como eles poderiam ser flexíveis e como podiam alterar suas táticas de acordo com a situação."





Mas o combate nunca endureceu Steinhoff. Em certa ocasião, enquanto testava um dos Bf 109 de sua base em Foggia (Itália), ele e alguns outros poucos pilotos foram atacados por um grupo de cerca de 100 caças a-liados, principalmente P-38 Lightnings. Junto com seu ala, Steinhoff virou-se e atacou os caças vindo de fren-te. Atirando como um louco, ele conseguiu atingir dois dos atacantes e pode observar um dos pilotos america-nos saltar de seu avião. Feito prisioneiro, o americano ficou surpreso em receber um convite do Geschwader-kommodore para jantar em sua barraca, regada com muito vinho italiano.




Nesse ínterim, em 28 de julho de 1944, o então Oberstleutnant Joha-nnes Steinhoff retornaria ao quartel de Hitler para receber as Espadas de sua Cruz de Cavaleiro (foi o 82º soldado a recebê-las), após obter sua 167ª vitória confirmada. Também já havia recebido o seu Badge de Ferido em Ouro e o Clasp de Vôo de Caça Diurno em Ouro. Nesta oca-sião, Steinhoff estava envolvido na Defesa do Reich contra os bombar-deiros aliados que já estavam transformando a Alemanha em um inferno de fogo e escombros.

Entra em cena o revolucionário caça à jato Me 262 Schwalbe. Após a morte de Nowotny em novembro de 1944, o seu antigo esquadrão (Kdo. Now.) foi integrado ao III/JG 7 e Steinhoff foi designado seu Geschwa-derkommodore.

Atuando junto ao III Gruppe, Macky conseguiria êxito ao pilotar a nova aeronave, vindo a se tornar um dos primeiros ases da era do jato da His tória, tendo abatido seis aeronaves inimigas (incluindo quatro bombardei ros quadrimotores).


No entanto, após a malfadada Operação Bodenplatte, onde os pilotos da Luftwaffe foram lançados em um ata-que inútil e sangrento contra as forças aliadas, houve um levante entre os pilotos líderes das Geschwaderncontra Göring e o Oberkommando der Luftwaffe. Liderados por Galland, Steinhoff, Lützow, Trautloft e outros, os sobreviventes tentaram impor sua visão ao Reichsmarschall mas não foram bem sucedidos e o levante falhou.

Como conseqüência, Galland foi exonerado de seu cargo de General der Jagflieger (sendo sucedido pelo impo-pular Gordon Gollob) e Lützöw e Steinhoff literalmente exilados na Itália. Em Fevereiro de 1945, Adolf Gallandforma a Jagdverband 44 (JV 44), que seria um "Dream Team" da Força Aérea de qualquer país: criada para pro var a eficiência do novo jato como um Caça por excelência, reunia boa parte dos ases alemães ganhadores daCruz de Cavaleiro que tinham sobrevivido até aquele momento. Assim, neste lendário esquadrão juntamente com o agora Oberst Johannes Steinhoff voaram Günther Lützöw (108 vitórias), Gerhard Barkhorn (301 vitórias),Heinz Bär (221 vitórias), Walter Krupinski (197 vitórias), além do próprio Galland (104 vitórias) e de vários ou-tros ases.


A carreira de Johannes Steinhoff durante a II Guerra Mun dial chegou a um final abrupto em 18 de abril de 1945. Nesse dia, um acidente terrível mudou para sempre a vi-da deste piloto mas, ao mesmo tempo, demonstrou a for ça de vontade descomunal existente neste homem.

"Eu estava decolando em formação em 18.04.1945. Ga-lland estava liderando o vôo, que incluía além de mimGerhard Barkhorn, Klaus Neumann, Eduard Schallmoser e Ernst Fahrmann . Deveríamos voar em formação e en-gajar um grupo de bombardeiros americanos. Nosso campo havia sofrido alguns danos nos últimos dias em razão de bombas e tiros dos aviões aliados e, enquanto meu jato estava ganhando velocidade para decolar, a ro-da esquerda do trem de pouso caiu em um buraco na pis ta que não havia sido corretamente tampado. Eu perdi a roda e o avião pulou cerca de um metro no ar e então eu tentei levantar a roda direita. Eu estava muito baixo para tentar abortar a decolagem e não havia velocidade suficiente para alçar o vôo. Eu sabia, à medida que pista de rolagem chegava ao fim, que eu ia sofrer um acidente.






O Me 262 bateu em um único grande choque, e o fogo irrompeu no cockpit enquanto o avião escorregava pela pista. Eu tentava soltar o meu cinto de segurança quando uma explosão sacudiu todo o avião e eu senti um calor intenso. Meus 24 foguetes R4M tinham explodido e o combustível estava me queimando vivo. Eu me recordo de abrir a capota da cabina e saltar para fora, com chamas ao redor de mim. Eu caí e então comecei a rolar. As explosões continuaram e a concu-ssão era ensurdecedora , derrubando-me toda vez que tentava correr. Eu não posso descrever a dor que sentia."

Levado a um hospital, poucos acharam que sobreviveria. Steinhoff so-freu várias queimaduras por todo o corpo e, principalmente, no rosto. Dessa forma, quando a guerra acabou, em maio de 1945, ele ainda lutava por sua vida em uma cama de hospital para queimados. Para se ter uma idéia da extensão de seus ferimentos, apenas em 1969 é que uma cirurgia feita por um médico britânico lhe reconstruiria as pál pebras (usando um enxerto de pele retirado do antebraço). Até então, Steinhoff simplesmente não podia fechar os olhos.

Dez anos após esse terrível acidente - boa parte deles de-dicados à fisioterapia e inúmeras cirurgias de reconstru- ção-, "Macky" Steinhoff, voltaria às Forças Armadas ale-mãs, sendo reintegrado na Bundesluftwaffe no fim de 1955 com o posto de Oberst. Ele seria o principal "recrutador" da época, sendo responsável por trazer de volta à ativa vá rios dos antigos ases, entre eles Gerhard Barkhorn, Gün-ther Rall e Erich Hartmann.

Nessa segunda fase de sua carreira ele foi treinado nos EUA para pilotar os jatos F-84 e F-104 Starfighter, sendo promovido a Generalmajor em 1958. Nos anos 60 se tor-nou Comandante das Forças Aéreas da OTAN na Europa Central e Inspetor-geral da Luftwaffe, até sua aposentado-ria em 31 de março de 1974 como General. Após sua aposentadoria, ele permaneceria um membro ativo das Organizações de Veteranos de Guerra da Alemanha.





Um dos grandes líderes da Luftwaffe em todos os tempos, Johannes "Macky" Steinhoff voou 993 missões de combate, ao longo das quais abateu 176 aviões inimigos (seis com o lendário jato Me 262, incluindo quatro quadrimotores), veio a falecer em 21 de fevereiro de 1994 em Wachtberg-Villip, Alemanha, sendo enterrado em sua cidade natal.



Bf 109D-1 - Oblt. Joahannes Steinhoff, 10(NJ)/JG 26 - Alemanha - dezembro, 1939



Bf 109G-2 - Hptm. Johannes Steinhoff, Kommandeur II./JG52 - Krymskaya/URSS - fevereiro, 1943



Me 262A-1a - Ob. Johannes Steinhoff - JV 44 - München-Reim/Alemanha - abril, 1945

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